Leandro Luque

Leandro Luque

Professional and personal homepage

A PARALISAÇÃO DOS CAMINHONEIROS E DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE

O desenvolvimento de software foi, por muitos anos, uma atividade puramente técnica e, muitas vezes, individual. Com o passar do tempo, percebeu-se que a atividade envolvia tanto fatores técnicos quanto humanos e era, em essência, colaborativa.

Em muitos projetos, a parte técnica é a mais fácil. Talvez um dos aspectos mais difíceis de gerenciar no desenvolvimento de software seja a expectativa dos stakeholders (envolvidos). São muitas cabeças e pontos de vista diferentes: clientes, usuários, desenvolvedores etc.

Se os pontos de vista fossem complementares, seria fácil, mas raramente são. O gerente do departamento A, um dos clientes, deseja que o sistema simplesmente facilite o processo atualmente executado pelos funcionários do departamento. O gerente do departamento B, outro cliente, vê no software uma oportunidade de mudar a cultura organizacional e seus processo e quer forçar uma mudança nos processos de todos os departamentos, inclusive no A.

Os pontos de vista conflitantes podem ser, inclusive, motivo para cancelamento de alguns projetos, quando não forem bem gerenciados.

O que vimos na última semana na paralisação dos caminhoneiros tem como causa, em última instância, justamente uma visão conflitante de stakeholders. A Petrobras é uma empresa de capital aberto, tendo o governo como acionista majoritário. Além do governo e de outros acionistas, os caminhoneiros e toda a população são stakeholders da Petrobras.

Existe um conflito enorme de interesse entre estes stakeholders quando se considera a dimensão financeira, a saber:

Os acionistas, em geral, visam lucro. Mais Reais (R$) representam maiores dividendos e também valorização das ações;
A população em geral visa o pagamento do menor preço possível (justo) no combustível. Quanto menor o valor, menores os custos de transporte e, ao menos teoricamente, menor o custo de mercadorias.
Os caminhoneiros ainda visam reduzir o valor do combustível para reduzirem seus custos e aumentarem o lucro relativo à atividade de transporte.
O Governo encontra-se perdido e procura compensar erros passados com políticas inadequadas, além da alta carga tributária incidente em quase tudo no país.
Como gerenciar os conflitos entre os stakeholders? Se a empresa não der lucro, acionistas fugirão. Se cobrar caro o combustível, como atualmente cobra, um ônus enorme é gerado para a população e, principalmente, para grupos específicos, como os caminhoneiros.

Assim como para o desenvolvimento de software, para a paralisação dos caminhoneiros e para muitos outros cenários, a razão de problemas é, muitas vezes, o conflito decorrente da visão diferente e conflitante de interessados…

DROP A COMMENT

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *